Ele só sabia que chovia. Como chegaram ali, como obtivera a imensa coragem de segurar a mão dela, como começara a falar heroicamente, quase sem gaguejar, como se tivesse ensaiado - isso ele não sabia. Mentira; lembrava de quase tudo, mas o importante mesmo era que chovia. Havia um silêncio de bomba - bomba não-lançada - entre cada frase. Ele falava, cada palavra um passo a mais em lago coberto de gelo fino, vendo o precipício no final de cada caminho (tão articulado o achavam e quando ele precisava falar, diacho, as palavras saíam cuspidas, sem sentido). E depois das palavras, mais silêncio, e ele ficava olhando pros olhos dela (quando ela lhe permitia vê-los) e espreitando a bomba naquele céu castanho - caía ou não caía? Aí ela falou - rápida, nervosa, quase desconexa. Mas nem tanto, as palavras dela talvez teriam feito sentido se ele a deixasse terminar. Mas ele a beijou e só soube dos lábios dela contra os seus e tudo fez sentido - as palavras dela, as palavras dele, o lugar, a chuva, o silêncio. E depois do beijo, foi outro silêncio de bomba. De bomba lançada, certeira, de bomba que acerta o alvo. E depois ele só sabia dos seus sorrisos.

Saber agora, ele não sabe de muita coisa. Não sabe quanto vai durar, não sabe quantas chuvas e quantos pôr-de-sóis. Mas ele sabe sim, que cada uma e cada um valeu a pena. Ele ainda não sabe o que é, mas é bom. Ele não sabe o que detonou aquela bomba. Ele só sabe que desde aquele dia ele, que só sabia ser feliz em parte, prova todos os dias as delícias de ser feliz por inteiro.

E eu só posso dizer que espero que essa história ainda demore muito pra acabar.

.
.
.
.
.
Tu sabes que é pra ti, bonita.

Lembrem-se das borboletas


"O amor de um cura o ódio de milhões"
(Gandhi)

Dos poucos luxos aos quais se dava na vida, um era aquele belo canteiro de flores. Mas não era um luxo que guardava pra si; tão logo as flores estavam no seu período mais bonito, ele as colhia, colocava-as num cesto e ia para o centro da cidade. E lá as distribuía para quem passasse. Sim, distribuía; muitos achavam que ele estava vendendo, outros tantos que ele estava ligado a alguma seita, mas a maioria pensava que ele era um maluco mesmo. E com razão.

A dona de casa passava com sua sacola de compras e o homem do escritório carregava uma pasta preta, mas ambos se incomodaram com a vadiagem do senhor. E mesmo ocupados como eram, resolveram ir até o homem e interpelá-lo:

- Escuta, moço, o senhor não tem mais o que fazer? - essa peróla de sutileza foi cuspida pela dona de casa.

O velho, doido, distribuidor de flores (e que também tinha algo de poeta, desconfio eu) também adorava conversar. Riu-se da pergunta da mulher e respondeu:

- Tenho, mas o que faço aqui é muito mais importante.

- Entregar flores às pessoas? De graça? - inquiriu a mulher, incrédula.

- Sim. Consegues pensar em algo mais importante?

O homem de negócios riu:

- Nesse momento me ocorrem pelo menos umas duzentas coisas de uma vez...

- Entendo... é uma pena... - disse o velho e parecia realmente apiedado.

E ele não parou de entregar as flores enquanto falava. Eram flores grandes, vistosas, bonitas. A dona de casa irritava-se cada vez mais:

- Mas por que diabos o senhor faz isso?

- Simples. Cada vez que entrego uma flor e alguém sorri, ganho uma batalha contra o ódio e a tristeza.

Os dois ficaram estupefatos. O homem continuou:

- Entendo o espanto. Também acho que o ódio e a tristeza devem existir no mundo. Mas penso que eles existem para podermos combatê-los e derrotá-los a cada dia.

Ele claramente interpretara erradamente os rostos dos dois. Mexendo incomodado na sua gravata, o homem de negócios falou:

- Não vês que estás empenhado em uma batalha vã?

- Sim! - concordou a dona de casa - De que adianta esse sorriso agora no rosto das pessoas se mais tarde essa flor vai murchar e eles voltarão a ser tristes - talvez antes disso, até. Talvez até joguem a flor fora, uma vez que estejam fora das suas vistas. De toda maneira, esse sorriso não ficará lá para sempre!

- Diga-me, minha filha, acaso não lembras das borboletas?

- Como?

- As borboletas... passam tanto tempo rastejando como lagartas e depois se fecham num casulo do qual lutam ferozmente para sair. Muitas morrem no caminho. Depois que viram borboletas, não duram mais que alguns dias. Porém eu não conheço muitas existências tão belas assim neste mundo.

A mulher arregalou os olhos, mas logo dissimulou a admiração. Fez cara de pouco caso e de caso perdido, agarrou a sacola e foi embora. O homem de negócios sorria. A afirmação daquele velho senil era bonita, mas e daí? Beleza e só, quem ligava pra isso?

- Achas mesmo que conseguirás vencer nessa revolução de flores, meu bom homem?

- Quem sabe, meu filho? Essas flores, eu só as distribuo.

- E acreditas que pode comover alguém? Que alguém continuará essa sua luta depois que o senhor se for? O que acontecerá quando o senhor partir deste mundo?

- Quando eu morrer, meu filho, meu corpo há de ser adubo para que nasçam ainda mais flores por aqui.

O homem sorriu. Disse ao velho que precisava ir e este entregou-lhe uma flor. Enquanto se afastava, o homem de negócios prendeu a grande, vistosa e bonita flor na sua pasta. O velho sorriu ao observá-lo de longe. Conseguira mais um soldado.

.

.

.

.

.

A todos que acreditam na utopia e no poder das flores sobre as armas e a todos aqueles que me ensinaram e continuam ensinando a acreditar nisso também. Muito obrigado a todos por existirem.


Foto: Pietro Cenini, extraída do calendário da ECOOS.

Bola de Sabão


Contornos de um cintilante cru
Invisíveis como fronteiras de ideais
Disfarçados em pureza ao olho nu
Turvas plumas ao vento
Flexível como a masmorra de uma mente
No cárcere privado do pensamento
Sua existência eternizada em segundos de leveza
A subida magistral de uma realeza
No ápice que a energia lhe permite
Em um instante de inércia
Uma virada de sentido emite
Queda livre
Ventre livre
Livre!
Implodem os confins inflexíveis
Expandem anseios inóspitos
Respiram ares impenetráveis
Maduros, abandonamos a bolha
.
.
.
Eu não sou muito (nem um pouco na verdade hhe) familiariza em escrita de poemas e poesias. Entao vcs perdoem ai minha ousadia. Eu não ia postar esse, mas não resisti. Preciso da opinião de vcs. Podem esculhambar, se preciso. Acabei pisando num terreno desconhecido. Mas a vale a nova experiência =)

Conselho


Por um segundo perdi a noção do tempo, submergi em meio à desonra. Meus valores, por tanto tempo escondidos, decidiram se expor. Surgiram como carrascos ferozes prontos para executar o condenado. Sede de vingança. Vingar-se de si mesmo talvez seja a mais fria das refeições. Até o ar tornou-se intimidador. Impossível encarar as paredes. Os olhos molhados chicoteavam meu orgulho, minha moral. Que moral? Não era preciso gastar palavras, eu era capaz de sentir na pele cada pensamento amargurado que se passava por aquelas mentes. Cada dolorosa acusação.
O que eu fiz pouco importa para quem não presenciou o feito. Mas o que eu senti muito vale para quem algum dia pensar em fazê-lo. Não me interessam ameaças, mas cabe a mim a advertência. Pensem. Faça o que fizer, ou não faça. Mas pense. Pense que o que é feito hoje ecoa pela eternidade e que os ecos tornam-se enfadonhos com o tempo.
A decepção é algo intrigante. Reflete em todas as direções possíveis, atinge a todos no caminho. Acende uma dor fina e infinita, em algum recinto entre a razão e a emoção. Mesmo lugar onde dói o remorso. No qual lateja a infâmia do próprio reflexo. Tudo isso se coagula em mágoa, petrifica-se em prantos. Úmida rejeição de quem se ama. Curvar-se em volta de perdões é o que lhe resta. Ajoelhar-se aos pés da vergonha.
E tudo pesa no mais íntimo que se pode ser, no eu mais nosso, onde somos mais sinceros, mais puramente impuros. Consciência. Um pedaço do eu que se esconde aqui por dentro, sempre pronto pra apunhalar nossas fraquezas. O calcanhar de Aquiles interior. O arrependimento. E esse homenzinho fujão percorre nossos espaços mais guardados, camuflados por nossos atributos. Expõe o obscuro impedindo que atos caiam no esquecimento e que o esquecimento nos faça cair em novos atos.
.
.
.
Esse mês as coisas por aqui ficaram meio desnortiadas ne? Mas a gente ja ta se organizando de novo. Acho que ja deu tempo de decorarem o editorial do Velho shuahsa. Perdoem gente, eu sugeri duas semanas e acabei deixando o texto la três!
Sobre o texto, nem eu sei o pq dele. Surgiu do além =)
Bjão!

A mais bonita




Era linda. Ele procurava outros adjetivos, mas encerrá-la em palavras era criminoso e ele não tinha vocabulário suficiente para isso. Mas era linda, em todos os aspectos, e ele não conseguia se acostumar a ver ela chegar todos os dias de olhos espertos e um sorriso gigante. Ele a tomava nos braços com carinho e cuidado, mas com força, como se não quisesse mais soltá-la, como se precisasse daquele abraço com a mesma necessidade do oxigênio. Como se precisasse gravar nele a impressão da pele macia dela, sentir suas bochechas apertadas contra as suas, pra não esquecer nunca mais, pra enfrentar mais aquele dia naquele mundo que nada interessava. Pra que trabalhar, pra que estudar, do que correr atrás, se a felicidade cabia naquele abraço, naquele olhar? A felicidade estava naquele riso, naqueles filmes vistos centenas de vezes a cada dia, nas músicas repetitivas e repetidas à exaustão - dos outros, não dela. E os pulos, e as danças, e os prédios inteiros construídos no chão da sala.


É tanta sonho, tanta graça que os dias realmente se tornaram dias e não sucessões de datas. Ela o fez entender que não se sorri só com a boca e os dentes, e ele ficou extasiado quando percebeu seus olhos, seu nariz, cabelos, orelhas, estômago, mãos, todos sorrindo em coro. Ele vê a cada dia ela curar seu coração cansado ou partido.


Ele chora, porque tem medo. Sabe que o abraço dele não poderá segurá-la para sempre, porque ela tem asas. Seria outro crime amarrá-las. Ela precisa voar e ele tem medo porque o céu tem é cheio de perigos, mas tem mais medo que ela não queira mais voltar. Tem medo que o abraço dele se torne demasiado incômodo para as asas dela que já são grandes e ah, hão de ser muito maiores. Ele quer que elas sejam maiores porque asas tão pequenas não conseguirão aguentar sonhos e sorrisos tão imensos por tanto tempo. E quando ela puder abraçar o mundo, será que lembrará do abraço dele?


Ele não sabe. Mas aí ela sorri pra ele e o medo some por agora. Ele está em paz e o corpo todo sorri.




Para Maria Gabriela.


PS: Sim, o nome do post é por causa do Chico. Mas é porque quando escuto "Beatriz" também lembro da minha sobrinha =)